sábado, 30 de junho de 2007

Perdido no meio de algures

Decisões são para se tomar de ânimo leve. Contudo a vida está cheia de más decisões e péssimas conclusões. E é perdido no meio de nenhures que acabo por perceber essa grande falha. Ás vezes é preciso perdermos o rumo para percebermos que estávamos a seguir o errado. E é assim que conclui que tomei o lado errado, mais uma vez. Mas pronto, sem crises, a vida é mesmo assim. Pelo menos é o que dizem os actores nos filmes e os escritores nos livros. Usam aquelas frases feitas e embelezam isto tudo que chamamos de vida. Faz parte.
È assim. Estou perdido. No meio de uma aldeia no norte. Menos de cinquenta pessoas num raio de um quilometro. Todos se conhecessem. E eu, não conheço ninguém. Árvores tapam tudo quanto é vista. O vento é puro e as casas têm tinta a cair. As raparigas não são bonitas. Os velhos não estão conservados. E eu não tenho paciência. A solidão do nada sempre me confundiu. Não me preenche. Aprecio a solidão, sempre apreciei. Mas gosto de ter algo para me agarrar. Gosto de estar sozinho, mas ter algo para fazer, algo para me preencher. E assim, não estou de facto sozinho. É a cura para a solidão que tanto procuro. È tudo muito confuso. Mas quem não o é?
No fundo, é aqui, perdido no meio de nenhures, cheio de compromissos, sem hormonas para usar, sem mente para trabalhar, sem inspiração para criar, que me sinto vazio. O vazio deu-me respostas, disse-me o mal que fiz. Disse-me a estupidez que disse. As decisões que tomei. As falhas no meu processo de me tornar um humano. Sou portanto, um falhado. Acho que todas as minhas falhas poderiam ser tratadas, se eu nascesse com um grilo falante. Se eu tivesse uma consciência que se manifestasse. E contudo, não a tenho.
Todos os que me conhecem tentam ser a minha consciência. Tentam me dizer o que está certo e errado. A questão é que nisso sou igual a toda a gente. Deixemo-nos de mentiras. Todos sabemos o que está certo e o que está errado. Não somos crianças. Sabemos a melhor coisa a fazer, sempre. Sabemos a pior coisa a fazer, sempre. E contudo, fazemos o que queremos. Nem sempre o mais correcto, nem sempre o mais humano. Mas a nossa decisão. E se nos respeitamos, então não guardamos rancor, então não temos remorsos. Cometemos erros, sim. Temos sangue frio para os superar. Temos inteligência para os remediar, mas não deveremos ter remorsos. Fizemos o que fizemos, porque quisemos, e apenas porque o quisemos. Não somos pobres idiotas sem vontade própria. Não somos movidos por um destino já escrito num velho papiro perdido pela Ásia. Somos humanos. Temos vontade própria. Tomemos então, as nossas decisões, quer sejam más ou boas.

Canto sem Encanto: Menina Loira

Era loira. Bonita. Sentada numa cadeira de rodas. Saia do carro com a ajuda da mãe. A mãe ajudou-a. Era bonita ela. Bonita e nova. A mãe era velha. Saíam do carro em direcção ao Mc Donalds. O carro era velho e sujo. Ela era nova e bonita. Estava numa cadeira de rodas. OS clientes no Mc Donalds olharam pelas paredes vidradas com desdém. Acabam por ignorar e continuar a comer entristecidos com ela. Ela sorria. Estava numa cadeira de rodas e sorria. Estava feliz. Respirava por um tubo de plástico ligado a uma caixa cinzenta. O seu cabelo era loiro. Chegava até á cintura. Era liso e brilhante. Ela estava numa cadeira de rodas. Sorria feliz. O vento deslizava pela sua cara. E ela gostava de o sentir assim. A mãe estava preocupada. Falava e empurrava a cadeira de rodas. Ela não. Ela estava feliz. Trazia uma mala. Tal como outra senhora qualquer. Estava bem vestida. A apanhar o seu cabelo estava uma borboleta cinzenta de metal. Ela respirava por um tubo fino de plástico. Estava sentada numa cadeira de rodas.
Entrou no Mc Donalds. Ninguém ajudou a abrir a porta para ela. Um cliente entediado com a espera para entrar abriu a porta. Recebeu um obrigado e partiu para o balcão. As pessoas olhavam-na com pena. Ela sorria alegre. A mãe empurrava a cadeira de rodas. Ela olhava para a ementa. Chegaram ao balcão. A mãe pediu. Ela sorria. Todos lhe olhavam. Ela não olhava de volta. Tinham pena dela. Olhavam-na como se o olhar doesse. Ela não olhava para eles. È má educação fixar o olhar em desconhecidos. Mas só ela parecia pensar assim. Respirava por um tubo de plástico ligada a uma caixa cinzenta. Ela estava feliz. Era tão bonita. Só queria almoçar. Não tinha preocupações naquele momento. Segurava a sua mala e olhava para cima. Estava na cadeira de rodas. A senhora do balcão perguntou o que queriam beber. A mãe pediu água para ela. Olhou para a filha e perguntou se ela queria Coca-Cola. Ela disse levemente:
“Antes quero Sumo de laranja.”
Todos temos de olhar pela nossa saúde.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Frases perdidas na mente III

Riscamos a alma com os nossos erros. Uma alma limpa é uma alma morta. 6-22-2007

O choro é a criação do além. É o reflexo da dor. É a garantia da nossa humanidade. É o nosso passe de entrada. 6-25-2007

Algumas pessoas deviam ser deportadas para o seu país de origem. Mas terá essa gente algum país seu? 6-25-2007

Vamos enganar a mente e ser todos felizes. 6-25-2007

Levantem o dedo para falar. Levantem o braço para revoltar. 6-27-2007

A nossa imperfeição não traz sintomas, apenas maus resultados. 6-28-2007

Tudo corre mal, quando tudo parece correr tão bem. 6-28-2007

Tão rápido somos felizes

E tão rápido somos infelizes. Que vida é esta que a felicidade é passageira. Que percurso é este que as incertezas são o motor do nosso movimento. Não devíamos ser tão inseguros. Não devíamos ser tão tolos. Não devíamos ser tão terrivelmente tristes. Tão terrivelmente patéticos.
Mas somos assim. Tudo é passageiro connosco. A nossa distracção de hoje será amanhã mais uma recordação. Somos mais que imperfeitos, viemos para este mundo cheios de defeitos. Impossíveis de curar, impossíveis de detectar. A nossa imperfeição não traz sintomas, apenas maus resultados. E nós somos a raça mais imperfeita á fase da terra. Somos complexos demais. Tratamos tudo com uma naturalidade inumana. Um sentimento incompleto. Uma ligação mal estabelecida.
Se a nossa vida fosse um livro, ele não teria livro. Apenas uma capa. A capa atrai as pessoas. Por que é quem somos, não passamos de apenas uma imagem, um titulo gigante e umas criticas de gente influente nas costas. Lutamos pelo respeito. Fazemos pela popularidade. Entretanto, cometemos erros nunca antes vistos. Tomamos decisões, nunca antes tomadas, e pelo processo, crescemos. Amadurecemos. Somos cada vez mais, aquele tipo previsível. Aquele idiota humano. Somos cada vez mais… alguém. E temos de ser alguém.
Passamos uma vida a lutar para nos colocarem uma etiqueta. Para nos marcarem como mais um. Para por uma vez na vida, sermos considerados alguém, sem mesmo termos de lutar por isso. O que queremos mais, é não falar. A vida torna-se tão repetitiva, que o nosso desejo é cada vez falarmos menos. Apenas respirarmos e suspirarmos, para que todos nos entendam. Sim, é isso que queremos. Ser compreendidos, apesar de sermos uns incompreendidos. E á velocidade que os nossos desejos desaparecem, as nossas fantasias morrem, e os nossos sonhos se tornam num vago branco e abandonado, por dentro, nos morremos um pouco mais. Somos assim.
E se ao menos não fossemos assim. Se aos menos soubéssemos ser directos. Se ao menos percebêssemos que a vida não se gere por horas certas. Que a vida não funciona apenas á partir de uma certa hora. Que tudo o que temos de fazer, não precisa de ser feito o mais tarde possível. Que devemos tomar uma atitude, quanto mais cedo. Que devemos decidir ser alguém. Que devemos dizer, quem realmente somos. Mostrar o que queremos fazer.
Ser directos. Parar quem achamos imperfeito, e contar-lhe. Falar-lhe do que nos irrita profundamente. Do respeito mútuo, mas esclarecer aquele pequeno pormenor que nos mete loucos. Contar-lhe que odiamos aquilo e aquilo, e gostaríamos de não dar em loucos. Porque no fundo, conversar é uma opção para não virarmos doidos. Devemos mostrar ás pessoas que somos vivos, e queremos ser ouvidos. Queremos falar e ser ouvidos. Se toda a gente fosse directa, não haveria desavenças, indirectas ou rodeios. Seríamos todos mais certeiros e correctos. Mas não o somos, porquê? Porque alguém nos assustou. E hoje? Não passamos de uns medrosos, com medo do nada que nos ameaça constantemente. Com medo da eternidade que é nossa.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Poetry that does not rhyme: Thank you

Few things make me laugh.
Few times I feel good.
Few times I feel safe.
But yesterday, I felt it all.
You made me smile again and again.
Brought me hopes and desires for you.
You made me feel alive and well.
And so I say thank you.
I say thank you.
Cause I wasn’t expecting it.
Nothing made me realize how good it will be.
Life isn’t a destiny.
It can’t be.
And if it is, who decides who?
Who pushes ourselves to be something that we aren’t?
Who makes us be what we don’t want to be?
Some might think you’re great.
Some may say you’re perfect.
But I don’t agree with you, when you say destiny exists.
Life’s not controlled by written lines.
We make our life.
We write the story of ourselves.
We decide what’s right and wrong.
And yesterday, I did what I did.
I’m not disappointed.
I’m happy, because I was myself.
I did what I wanted to do.
And talking to you like that, was great.
I said what I wanted to say.
And you made it great.
But I don’t what to do the same mistakes again.
So, forgive if I’m slow.
Forgive if I’m afraid.
I will tell you how much I want you.
Just give me time.
And you will know.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Diário do arrependimento

“Nunca te bati. Nunca te menti. Nunca pensei duas vezes quando falava contigo. Sempre fui justo, honesto e certo. Não me obrigas-te a fazer o que fiz. És tão igual como diferente de todas as pessoas que conheci. Nunca te fiz nada que não quisesse fazer. Nunca te enganei. Nunca te quis ver chorar. Nunca te quis atingir com o que dizia. Nunca te quis magoar. Nunca pensei que seria assim. Não quis.
Mas foi como aconteceu. Hoje, és o meu único arrependimento. O tempo cura tudo. As cicatrizes desaparecem lentamente, deixando uma mísera marca que apenas eu sei encontrar. A chuva molhou-me e constipou-me, mas hoje, já nem recordo como estava. A comida, soube-me bem e mal, mas não consigo descrever nenhum dos sabores que tive o prazer de gostar. As pessoas que conheci, algumas deixei de falar, outras perderam-se no caminho, mas hoje, nenhuma delas deveria estar ao meu lado.
Apenas tu. Tu és a única coisa que mantenho na mente. Por muito tempo que passe, por muita chuva que apanhe, por muitas marcas que o meu corpo tenha, por muitos sabores e odores que aprecie, por muitas pessoas que conheci, apenas tu resistes. Como se um dia, amnésico e perdido, o teu nome ecoasse na minha mente. Como se um dia, muito depois de ter perdido a minha humanidade, tu ainda vagueasses pela minha mente, naturalmente e vivamente. És o meu único arrependimento. Nunca te quis ofender.
A culpa foi minha. Minha apenas. Não vou dizer que não. Não vou dizer que não estava sobre o controlo das minhas capacidades e atitudes quando fiz o que fiz. Não vou culpar drogas ou substâncias que me alterem. Não vou culpar a temperatura, os meus pais, á minha liberdade. Não vou culpar a minha falta de carácter, a minha falta de personalidade, o meu abuso de estupidez.
Tudo parece tão fácil quando temos alguém para por as culpas. Tudo parece tão simples. Tão acessível. Mas neste momento, não tenho nada para por as culpas em cima. Não posso dizer que te fiz mal. Que te dei fortes e continuas razoes para me abandonares. A verdade, é a culpa disto tudo, é minha. Não é possível culpar-me. Não sou o culpado. Se alguém analisa se tudo o que passamos, tudo o que dissemos, não seria capaz de me culpar a mim pelo que se passou. Fiz o que fiz, reagiste como reagiste.
Deus sabe como te tentei encontrar. Deus sabe como quando sempre que ouvia o teu nome, ou ouvia falar do sítio onde estás, eu pensava em ti. Sempre que se falava de algo que foi importante para nós, o teu nome surgia, como aquela velha cicatriz, sem vontade para desaparecer. Dizem que, apoiando-nos com novas descobertas e esforços médicos, é possível retirar essa cicatriz. Dizem que se a taparem, com algo novo, algo não deformado, ela irá desaparecer. Mas de todas as cicatrizes que tenho, és a única que nunca quero perder. Poderei talvez um dia sofrer de amnésia. Poderei talvez até ser incapaz de falar. Incapaz de me mexer. Mas espero que nunca chegue o dia em que te esqueça. Em que este arrependimento acabe. Porque quando esse dia chegar, então não serei eu. Não serei eu a controlar-me. Estarei louco, sem justiça. Parvo e idiota, como estive no dia em que te perdi. Razoes não te faltam, para teres reagido da maneira como reagiste. É uma pena. Mas hoje, somos estranhos. E o facto de hoje, não nos falarmos, é aquela cicatriz, aquela impenetrável e inquebrável. Mas de todas elas, és a única cicatriz que nenhuma operação poderá tirar. És a única recordação que nenhuma doença poderá perder. És o único sentimento que alguma vez será substituído.
Estou arrependido, mas de que vale o arrependimento se nunca poderei remediar o que fiz? Não te peço desculpa, não porque não mereço, mas porque não fiz nada de mal ou sem a minha intenção. Peço que tenhas uma boa vida, porque nunca foi minha intenção magoar-te.”

domingo, 24 de junho de 2007

Música para ouvir: Jackie Wilson - Higher and Higher



Your love, lifting me higher
Than I've ever been lifted before
So keep it it up
Quench my desire
And I'll be at your side, forever more

You know your love (your love keeps lifting me)
Keep on lifting (love keeps lifting me)
Higher (lifting me)
Higher and higher (higher)
I said your love (your love keeps lifting me)
Keep on (love keeps lifting me)
Lifting me (lifting me)
Higher and higher (higher)

Now once I was down hearted
Disappointment was my closest friend
But then you came and it soon departed
And you know he never
Showed his face again

That's why
You know your love (your love keeps lifting me)
Keep on lifting (love keeps lifting me)
Higher (lifting me)
Higher and higher (higher)
I said your love (your love keeps lifting me)
Keep on (love keeps lifting me)
Lifting me (lifting me)
Higher and higher (higher)

[Instrumental Interlude]

I'm so glad, I've finally found you
Yes, that one, in a million girl
And now with my loving arms around you
Honey, I can stand up and face the world

You know your love (your love keeps lifting me)
Keep on lifting (love keeps lifting me)
Higher (lifting me)
Higher and higher (higher)
I said your love (your love keeps lifting me)
Keep on (love keeps lifting me)
Lifting me (lifting me)
Higher and higher (higher)

(Nota pessoal: Ouvi esta música hoje, mais uma vez, e senti-me forçado a colocá-la aqui.)

sábado, 23 de junho de 2007

Vale sempre a pena

Á meses atrás, seria incapaz de o dizer, mas a verdade, é que vale sempre a pena. Vale a pena arriscar. Vale a pena falar. Vale a pena confiar. Vale a pena viver.
A vida é tão vasta, que seria patético morrer tão cedo. Não escolhemos a idade com que morremos. Mas sempre teimei em um dia ter o privilégio de a escolher. A morte sempre me confundiu. Pensava, no meu subconsciente, que a morte era uma passagem. Um teleporte para outra dimensão. Nunca de inferno ou paraíso, mas para outro sitio. Como se todos nós soubéssemos que um dia partiríamos para esse mundo. E assim, a morte nunca me confundiu a mente. Contudo, agora, sinto-me vivo. Sinto que vale a pena continuar.
A verdade é que sou novo. A vida está toda á minha frente. Mil e uma opções para escolher. Mil e um caminhos para percorrer. Mil e um amigos para acompanhar. A eternidade, a eternidade que tantos lutam para um dia alcançar, é já nossa. Nós controlamos a eternidade. Se tomamos uma decisão, poderemos leva-la connosco para a cova. Se guardamos um segredo, podemos mantê-lo até morrer. Sempre fomos eternos. Provavelmente, não estaremos aqui para ver os nossos bisnetos chegarem á faculdade. Somos feitos de incertezas. Mas a verdade, é que depende de nós, alguma vez termos bisnetos. Depende de nós, continuarmos a ser amigos de quem somos. Depende de nós tudo…o que tenha a ver connosco. Somos nós que fazemos o nosso caminho.
Guardo rancor, sim. Gosto de deixar de falar com as pessoas que conheço. Porquê? Porque me sinto eterno. Porque para sermos eternos, temos de nos privar de algo. A eternidade é nossa, se depender apenas de nós. Mas se confiarmos em alguém. Se acreditarmos em alguém, então somos mortais. Não há certezas neste mundo. Não pode haver. E isso torna tudo mais interessante. Isso torna tudo mais nosso. A música é nossa. A arte é nossa. As ruas são nossas. A poesia é nossa. A vida…essa já não posso dizer o mesmo.
Mas de resto, tudo é nosso. E vale sempre a pena tirar o máximo do que é nosso. Quem sabe um dia não poderemos usar aquilo que temos? Quem sabe um dia ficamos paralisados do pescoço para baixo? E aí, basta-nos chorar, pois já não podemos andar. Mas será que isso deve ser razão para morrermos? Não. Nada deve ser suficientemente mau para nos por fim á vida. Vale sempre a pena tentar. Vale sempre a pena inovar. Vale sempre a pena inventar. Que recordemos o passado, com uma gargalhada e uma lágrima. Que vivamos o presente com um sorriso e esforço. Que pensemos no futuro com esperança e sonhos.
A vida, essa, é agora. Somos limitados. Não somos heróis ou poetas. Somos humanos. Defeitos não nos faltam. Mas quem pode lançar a primeira pedra? Eu sei que não posso. E é por isso que repito, vale sempre a pena. O pior que nos pode acontecer? Morrermos e voarmos de teleporte para outra dimensão, outro universo, outro lugar. Sem dor, vivamos.

Canto sem Encanto: Estranho negro

Era estranho. Era preto. Falava sozinho. Mexia-se pouco. Era quase careca. Tinha pouco cabelo e era branco. Tinha um sinal grande sobre o olho esquerdo. Falava sozinho coçando a cabeça com a mão direita. Olhava para um ponto indefinido. Falava. Olhava para a mala. A mala era preta e suja. Olhava para dentro da mala repetidas vezes. Confirmava se estava tudo com ele. Olhava mais uma vez para as pessoas. Era pequeno e estava sentado sozinho. Numa mesa só para ele e com a mala em cima. Levantou-se. Deixou a mala na mesa. Mal deu dois passos olhou para a mala. Parecia ter medo que ela fugisse. Andava e olhava para a mala. Confirmava se estava no lugar e voltava a virar costas. Olhava. Andava. Olhava para a mala. Andava para o restaurante.
Pagou uma garrafa de água fresca. Sentou-se. Já não queria saber da mala. Agarrava a garrafa. Resfriava as mãos com ela. Falava sozinho mais uma vez. Coçava a cabeça uma e outra vez. Olhava para as pessoas. Era estranho. Eu via-o. A dois metros de distância. Ele olhava para todo o lado menos para mim. Parecia não se importar que o olhassem. Vivia no seu mundo á parte. Não queria saber de nada nem ninguém. Tirou um livro da mala. Abriu-o. Tirou da mala uma sandes entre guardanapos. Abriu-a cuidadosamente. Comeu a sandes. Fechou os guardanapos cuidadosamente. Abriu a garrafa. Bebeu um pouco. Ainda falava sozinho. Tirou da mala outro livro. Coçava a cabeça com a mão direita e segurava o livro com a direita. Na aba do livro conseguia-se ler:
“Matemática avançada.”
Era estranho o senhor.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Frases perdidas na minha mente II

O orgulho matou o Diabo. 6-16-2007

Um dia quisemos recordar. E criámos a fotografia. Um dia quisemos voar. E criámos a música. Um dia quisemos amar. Tivemos de descobrir como. 6-16-2007

Mentimos porque sentimos falta dos sentidos vividos e fodidos. 6-16-2007

A falta de senso comum permitiu a evolução da humanidade. 6-16-2007

Se pudesse recortava uma nuvem e colava no tecto. 6-16-2007

Esconde os olhos se tens algo a temer. Esconde o orgulho se tens algo a dizer. Esconde a mente se tens algo para fazer. 6-17-2007

As memórias são como um largo oceano. Por vezes afogamo-nos na sua imensidão. Outras voamos e contemplamos quem fomos, sem medo. 6-19-2007

Esfaquearam-me a alma. E o corpo? Esse, não valia nada. 6-20-2007

Olá, queres ser meu amigo. Não. Um dia vais morrer sozinho. (uma rapariga de doze anos e eu, a conversar) 6-20-2007

A simplicidade é a maneira mais humana que arranjamos para não termos de ser humanos. 6-21-2007

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Temos de ter paciência

Eu não tenho. Digo já, eu não tenho. Por muito que me esforce, existem sempre certas coisas para as quais não há paciência. E uma delas é, infelizmente, muitas das pessoas que conheço. Falta me paciência. São todas muito certinhas, ou muito mesquinhas, ou muito interesseiras.
E eu, não tenho paciência. Dizem que, por isso mesmo, sou muito directo. Acho que não. Acho que se eu fosse directo, seria muito diferente. Sou como todos os outros. Á certas coisas que guardo para mim. E outras, que digo. Algumas das que digo, contudo, talvez não devesse dizer.
Já ouvi certas pessoas dizerem que, quando têm de dizer algo dizem. O que é no mínimo patético. Mal podem, escondem-se por trás de alguém. Se têm oportunidade, escolhem alguém para ser porta-voz. E gostam de carregar o título de gente que fala directamente. Tanto é necessário coragem como loucura, para enfrentar alguém com a verdade. Acho de louvar quem seja verdadeiro. Acho de venerar quem seja louco.
Sempre disse que não temos juízo suficiente para considerar alguém louco. E contudo enfiamos com malta num hospício porque os vemos como diferentes. Se calhar também enfiávamos lá os políticos e os racistas todos também. Pensam de maneira diferente da nossa. Uns roubam outras maltratam quem vêm de fora. São diferentes do comum dos mortais, porque não estão eles lá? E contudo governam países e mexem multidões. Estão á solta. Mas de novo solta-se a questão:
“Quem sou eu para os julgar?”
Não tenho paciência. Não tenho mesmo. Já explodi várias vezes. E para essa gente toda, mais vale um dia ser directo, do que para sempre hipócrita. E é por isso que não me apanham a cumprimentar mil e uma pessoas por dia. Não quero. Não vou. E serei directo, se algum dia precisar. Porque, precisamos de paciência. Mas eu não a quero. Prefiro ser assim. Imprevisível. Sem paciência

terça-feira, 19 de junho de 2007

Poetry that does not rhyme: Finally flying

It’s over.
Found that in the sound of music.
Paying attention to its lyrics.
Understanding more then its smooth sound.
And letting it enter in me.
We can understand our mistakes and errors.
So I’m finally over.
After so many struggles I said goodbye.
I had to.
And I definitely don’t fell remorse.
I fell alive.
I definitely don’t fell pain.
I fell healthy.
And I certainly fell like I was a human.
And it fells nice.
Life’s getting darker, and harder.
All we have is our trust in our abilities.
And that’s it.
Life’s always different.
But one things common, we are here.
Should we take the best we can from this world?
I guess we’re doing it.
If sometimes we’re dumber than we should.
If sometimes we’re more pathetic.
Well, we wanted it to be like that.
We wanted to look like that.
That’s who we are.
And people should get used to it.
We aren’t that predictable.
No one is.
And now, now that it’s over.
Now that music awoke me from my enjoyable sleep.
Now I say I’m happy.
Because life seems better.
I can fly in my memories and don’t be afraid to fall.
No one likes to fall in the big ocean of memories.
Sometimes you can drown.
But if you fly, then you’ll never drown.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Diário do rancor

“Guardo sempre rancor. Guardo rancor de quem me magoou. Guardo rancor do que correu mal. A culpa é tua. Talvez não seja perfeito, mas tu nem lá perto estás. És ruim, inútil e inculta. E contudo, conseguiste me magoar. Como pude eu deixar. Como pude eu não notar em ti. Não perceber o mal que me fazias. O erro que eu cometia.
Mas pronto, agora acabou-se. Sim, finalmente. Tenho, contudo, pena do que perdemos. Dávamo-nos tão bem. Éramos tão amigos. Partilhávamos cada momento. Estávamos juntos, e sabíamos que ia vale a pena. Sabíamos que tudo ia correr bem. O momento era nosso, e íamos ser felizes.
Mas acabámos! Agora já nem te posso ver. Agora sempre que estamos juntos, guardo rancor. Já nem consigo olhar para a tua cara! Metes me nojo. Fazes me recordar… Recordar o quanto era feliz contigo. E no fim, a rapidez com que destruíste essa nossa amizade. Essa nossa relação. Ah, que porcaria que me saíste. Sabes que, sempre que te vejo, penso na vergonha. Penso nas pessoas que me eram chegadas, e que te apresentei. Logo tu, que não és nada do que eu queria. Nada do que eu defendia. Será que as pessoas olharam para mim e pensaram:
“Tanto falava, e apaixonou-se por uma rapariga assim.”
Não, eu não me apaixonei, e estou longe disso. Odeio-te. Guardo rancor. Metes-me nojo. Sempre que te vejo. Falas comigo. E respondo-te. Mas não passa disso. Não quero saber da tua vida, dos teus amores, da tua vida. Nada. Para mim, já não existes.
Nunca mais te olho para a cara. Já não preciso. Já não quero saber. Adeus, e que saibas, não quero nada contigo. Nem quero ouvir o teu nome, ou saber que estas bem ou á beira da morte. Guardo rancor.”

domingo, 17 de junho de 2007

Música para ouvir: Dandy Warhols - Bohemian like you



Youve got a great car,
Yeah, whats wrong with it today?
I used to have one too,
Maybe youll come and have a look.
I really love your hairdo,yeah,
Im glad you like my do,
See were looking pretty cool, getcha.

So what do you do?
Oh yeah I wait tables too.
No I havent heard your band,
Cause you guys are pretty new.
But if you dig on vegan food,
Well come over to my work,
Ill have them cook you something that youll really love,

Cause I like you,
Yeah, I like you,
And Im feelin so bohemian like you,
Yeah, I like you,
Yeah, I like you,
And I feel wahoo, wooo

Wohoo hoo hoo x4

Wait,
Whos that guy,
Just hanging at your pad.
Hes looking kinda blah,
Yeah, you broke up thats too bad.
I guess its fair if he always pays the rent,
And he doesnt get bent about sleeping on the couch when Im there,

Cause I like you,
Yeah I like you,
And Im feeling so bohemian like you.
Yeah I like you,
Yeah I like you,
And I feel wahoo, woooo
Wohoo hoo hoo x4

Im getting wise,
And Im feeling so bohemian like you,
Its you that I want so please,
Just a causal, casual easy thing.
It isnt? it is for me.
And I like you,
Yeah I like you,
And I like you, I like you, I like you, I like you, I like you, I like you
I like you.
And I feel wahoo, woooo
Wohoo hoo hoo x4

(Nota pessoal: Seria impossível deixar tal música na escuridão do passado.)

sábado, 16 de junho de 2007

Por trás da sombra, todos somos homens

No escuro da neblina, até o mais fraco sabe dançar. Na sombra do mais alto, até o mais baixo saber falar. No lado do mais forte, até o miserável sabe lutar. E quem irá responder? Quem se irá defender perante uma plateia tão forte e tão desigual? Poucos. E mesmo eu prefiro me esconder por trás de cortinas, em vez de dar a cara por uma causa perdida.
Onde será que falhamos? Sabemos que dói. Dói constatar que aquilo que mais defendemos cai, como peças de dominó, quando enfrentamos um perigo maior. E contudo dizemos que não. Dizemos mal da corrupção, da mentira e da dor. E contudo causamos qualquer uma delas, ás vezes as três ao mesmo tempo, apenas para atingir a satisfação. Dizemos mal dos que mais sofrem, mas se confrontados com uma oportunidade de os salvar, então recuamos. Porque o nosso pescoço é mais importante que os milhares de pessoas que diariamente ficam sem eles.
E é assim. Temos uma vida. Poucos de nós nos queremos armar em Teresa de Calcutá. Poucos de nós queremos passar a palavra como “Che” Guevara. Poucos de nós queremos ser os primeiros em algo como Vasco da Gama. No fundo, todos queremos viver. E o sucesso, é relativo. Queremos ser bem sucedidos na vida. Á nossa maneira. Quer ela seja num sótão a fumar ganzas, ou numa convenção a dar um discurso. A vida é relativa. Se cada um toma as suas decisões, que as tome. Se queremos algo da vida porquê sermos impedidos de tal? Deveremos seguir o que queremos. Poucas profissões estão fora do nosso alcance. Mas algumas estão. Tipo:
Psicopata, muito patético.
Politico corrupto, concorrência a mais.
Poeta filosofo, sem futuro.
E a lista prossegue. O futuro está aberto. Não devemos deixar que nós impeçam de fazermos o que queremos fazer. É claro que vamos sempre fugir quando contra um inimigo maior. É claro que vamos sempre recuar, contra uma batalha suicida. É claro que vamos sempre temer contra um adversário vencedor. Mas se um dia, um dia só, tivermos oportunidade de provar que não somos mais um, então gostava de poder agarrar esse dia. Gostava de saber que vou me levantar e caminhar, quando todos os outros recuarem. Que vou olhar nos olhos quando todos os outros desviarem o olhar. Que vou lutar, quando todos os outros se renderem. Se esse dia chegar, e eu tomar a decisão correcta, então todas as derrotas serão soldadas. Todos os erros serão perdoados. E eu, serei mais do que qualquer outro. Serei humano.

Canto sem Encanto: Rapariga Muda

Vi-a. Era muda. Não falava. Agarrava um CD de música. Puxou pela mãe. A mãe olhou-a. A mãe tinha óculos e era loira. A filha era morena e muda. Mostro-lhe o CD. Não disse nada. Ajoelhou um joelho e juntou as duas mãos. Parecia rezar. Rezava para quem lhe era mais querida. A sua mãe olhou-a. Disse que sim. A rapariga não falava. Apenas pedia em silêncio o CD de música. A mãe disse que sim. Ela levantou-se para logo se ajoelhar. De novo a mãe disse que sim acenando. A rapariga era muda. Ela agarrou a mãe num abraço. E sorriu com ela.
Foi-se embora. Levando o CD de música na mão. Ela afastou-se. A mãe procurava livros de arte moderna. A filha procurava outro CD. Tirou outro CD. Ajoelhou-se mais uma vez á mãe. A mãe não olhou. Ela puxou uma vez. A mãe olhou. Ajoelhou-se e pediu o CD. A mãe esperou. Pegou no CD e olhou para ele. Disse que sim. A filha abraçou-se a ela. Deu-lhe um beijo. Ela foi-se embora de novo. Ligou os “headphones” com música. Colocou nos ouvidos. Começou a mexer-se com a melodia. Não mexia a boca. Não sabia a letra. Não sabia falar. Ficou ali com a música.
A mãe chegou. Ela abraçou a mãe. A mãe sorriu. Ela apontou para o que ouvia. A mãe acenou. Disse que gostava. Ela sorriu. Pegou no novo CD de música. Mas a mãe apontou para os que já tinha. Era suficiente. E ela não falava. Apenas sentia-se feliz com o que a mãe lhe deixaria comprar. Saltava e pulava. Trazia uma camisa ás riscas e uma saia de ganga. Era muda A mãe tocou no relógio e apontou para a saída. A filha sorriu e apontou para as prendas. A mãe disse que sim mais uma vez. A filha sorriu e saltou. Abraçou a mãe e disse:
“Obrigado mãe, adoro-te.”
Não era muda.